domingo, 30 de outubro de 2011

SANGUE DE CONDOR (Jorge Sanjinés, 1969), por Matheus Cartaxo Domingues



O filme possui uma montagem intercalada de duas linhas temporais. Uma delas se passa com a progressiva tomada de consciência dos índios de uma vila acerca de um grave programa de esterilização das nativas, promovido com apoio do governo boliviano. Na outra parte, após um líder da posterior revolta ser ferido, acompanhamos a busca do irmão dele por formas de lhe conseguir remédios e uma transfusão de sangue.

A divisão estabelecida desse modo, apesar de parecer sofisticada, se mostra com finalidades elucidativas: balancear as duas frentes do filme (primeiro, a ação violenta legitimada pelo governo contra as pessoas daquela vila, e depois a segregação do acesso à saúde no país) ao mesmo tempo em que elas são dramatizadas e têm seus significados relacionados. Seria equivocado pensar que ambas estão inclusive unidas pelo “sangue”, aqui símbolo de continuidade, seja da existência daquele povo ou desse sentimento revolucionário que os fez insurgir?

O filme é bastante didático. A decupagem das cenas é simplificada ao máximo: num diálogo, é comum que as pessoas estejam sentadas e cada uma fale no momento em que é filmada em close (algumas vezes até olhando para a câmera). Essas decisões provavelmente estão ligadas ao fato de Sanjinés usar atores indígenas não profissionais e também endereçar o filme a essa gente, tendo portanto de ser claro no discurso.

Por ter esse tom informativo, Sangue de Condor difere de outros filmes de cunho político. Não há histeria, nem verborragia, nem excessos estilísticos. A vontade de comunicar algo implica aqui a necessidade de se ajustar a uma forma conveniente.

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