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sábado, 25 de junho de 2011

"A história oficial", por Rebecca Cirya



O filme A história oficial (1985) é um filme argentino dirigido por Luís Puenzo. O contexto histórico da narrativa fílmica é o pós-ditadura na argentina, mais precisamente no ano de 1983, nesse cenário vemos um país que ainda sofre os males (miséria, destruição e morte) causados por uma das ditaduras militares mais cruéis da América do Sul, denominada de “Guerra Suja”.

Alicia (Norma Aleandro) apesar de ser uma rígida professora de história da Argentina, vive alienada quanto à verdadeira história cruel e desumana pela qual a Argentina passou nos tempos de ditadura e que resultou em milhares de desaparecidos. É justamente na questão dos desaparecidos que o filme de Puenzo é mais enfático, pois o desenvolvimento da narrativa se dá pela conscientização política de Alicia e na sua busca pela identidade verdadeira dos pais de sua filha adotiva Gabi (Analia Castro).

É um filme que denuncia todo horror praticado pela ditadura sem mostrar cenas de torturas ou assassinatos, o espectador é informado da crueldade através de longos diálogos emocionantes, como é o exemplo da cena em que Alicia conversa com sua amiga Ana (Chunchuna Villafañ) recém-chegada do exilio. Anna após beber algumas taças de vinhos e licores conta entre risos e choros como foi torturada (choques elétricos, afogamento e espancamento) essa cena belíssima é embalada por uma música triste e melancólica que propicia um plano de fundo perfeito para a dramaticidade proposta pelo diretor. A cena filmada em close-up permite uma melhor visualização das emoções transmitidas por essas duas atrizes, excelente atuação.

Depois dessa conversa com Anna e da informação de que os filhos dessas pessoas torturadas muitas vezes eram vendidos ou doados as pessoas de classe média alta que não procuravam nem saber de onde eram essas crianças, Alicia então começa uma investigação para conhecer ou saber quem foram os pais de sua filha. Nessa procura ela vai conhecendo mães e avós que estão procurando parentes desaparecidos; sua relação com os alunos torna-se mais humanista, pois ela que antes só valorizava o conteúdo dos livros passa a aceitar comentários que não estão em livros, mas são relevantes.

Uma das cenas do filme faz homenagem às mães e avós da “praça de maio” que tiveram seus filhos desaparecidos na ditadura e dedicam-se a procura deles com fotos e nomes. Ainda hoje essas mães e avós fazem manifestos na Praça de Maio, essa ação visa manter vivo na memória dos Argentinos o desaparecimento de seus filhos e netos. Como a própria protagonista do filme afirma na primeira cena em sala de aula: a história é a memória dos povos. Essa história apesar de triste e cruel é uma eterna lembrança nas vidas desses familiares vivos e de todo povo Argentino. Como negar esse passado? A memoria (passado) é fundamental na construção de uma identidade nacional, mesmo que ela traga consigo experiências desagradáveis.

A história oficial é um filme importante historicamente, pois revela uma parte da história não apenas da Argentina, mas que marcou a maioria dos países da América do Sul. Mais que isso é um filme humanista, que versa sobre relações, é uma busca pelo autoconhecimento, não se detém as questões políticas, mas penetra nas emoções e conflitos pessoais dos personagens. O filme começou a ser filmado ainda em 1983, final da ditadura, ousado para época, mas que impressionou milhares de pessoas e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1986.

domingo, 30 de maio de 2010

"O feio fato feito " por Victor Laet


O feio fato feito (1)
Um defeito. Na verdade, uma observação: existe o fato e existe o feito. A uns importa o fato. A outros, a importância maior é o feito. O feito pode se torna fato, mas o fato não necessariamente precisa ter sido feito – sendo fato já é considerado feito, ocorrendo (de fato) ou não. O fato é (se não sempre legitimado) aceito. O feito só é deveras fato caso possa ser provado. O fato nem sempre é feio. O feito, nem sempre é feio. Outro defeito (ou outra observação): o mais feio é o fato feito ou o fato que não feito? Ou, o feito que não é o fato ou o feito que é fato?

Um feito. Em 1983, a ditadura militar na argentina conhecia o seu fim e se iniciavam as gravações de “La historia oficial” (2) : fato. Outro feito: as gravações foram interrompidas por dois anos devido às ameaças recebidas pela parte técnicas: fato. Neste jogo de palavras e cacofonia foi construída a estória do filme, a qual narra, em suma, a busca da verdade por uma professora de história (de cunho positivista).

Norma Aleandro protagoniza Alicia, uma típica mãe e esposa da burguesia argentina em 1985. Com o cabelo sempre preso, suas roupas discretas, com tons coloridos, mas comportados ela leciona história argentina para o ensino médio num colégio só de homens. No primeiro dia de aula a professora capitula que “a história é a memória do povo” e com o passar de suas aulas demonstra claramente sua adoção ao positivismo histórico ao validar, como uma ciência exata, os fatos. Documentação, fontes, para ela a memória do povo só é aquela a qual pode ser provada, documentada, datada.

O fim da ditadura faz com que os argentinos exilados e auto-exilados retornem e (somados aos que aqui estavam) se indaguem quanto a questões financeiras e desaparecidos e presos políticos (3) . Esse fato (e feito) é adotado pela diegese do roteiro e assim a trama evolui grandiosamente: depois de anos distante, Alicia reencontra uma Ana, uma amiga a qual foi exilada e esta a revela sobre feitos (não considerados até então como fatos) da ditadura. A partir daí a professora de história desperta um olhar de que nem sempre a história é como se contada, registrada. Como um aluno, o qual ele repreende, afirmou: ‘a história é escrita por vencedores’.

O despertar tipo pela protagonista não é só na forma como aborda sua metodologia. Incapaz de engravidar, ela e marido decidem adotar uma criança. Ao ter a menina, o casal pactua em nunca falar sobre a adoção e tratam de registrar e escrever uma história (ou a estória) da filha. Com o despertar, Alicia se depara com o fato de que os feios feitos ocultos da ditadura podem ter sido por aqueles os quais a ajudaram a sua família construir uma boa vida, sendo o mais feio destes feitos, o fato de sua filha poder ser uma filha de algum desaparecido político.

É nesta busca pela identidade da filha, na história da filha, na negação da estória documentada da filha que reside a força do roteiro e, principalmente, da direção de arte e cenografia do filme (4). Quanto mais se aproxima da verdade, mais colorida e livre a personagem se veste, mais solto fica o corte de cabelo (5).

O filme ainda aborda rapidamente questões como o apoio da igreja quanto à junta militar instituída e as guerras das Malvinas. O fotograma acima mostra uma das cenas de maiores tensões, pois apresenta relacionamentos familiares e visões políticas. Os sogros da personagem principal são espanhóis comunistas fugidos da ditadura franquista. Geralmente, discussões entre socialismo e capitalismo tendem a ser cansativas e, muitas vezes, imbecis. Não nesse caso.

“La historia” enturma uma lista de filmes argentinos feitos no período pós Galitieri. Esses filmes são caracterizados por um registro honesto e direto das torturas, repressões e desaparecimentos de opositores ao regime militar na segunda metade da década de 70. Junto do longa-metragem de Puenzo, são muito citados “No habrá más penas ni olvido” (1983, de Héctor Olivera) e “La noche de los lápices” (1986, de Héctor Olivera).

NOTAS:

1. Feio” sempre será, nesse texto, um eufemismo.

2. “La historia oficial”, direção de Luiz Puenzo, roteiro de Luiz Puenzo e Aída Bortnik, Argentina, 1985. (Título no Brasil: “A história oficial”).

3. “MILICOS, MUY MAL PARIDOS,
¿QUE ES LO QUE HAN HECHO CON LOS DESAPARECIDOS?,
LA DEUDA EXTERNA LA CORRUPCION,
SON LA PEOR MIERDA QUE HA TENIDO LA NACION,
¿QUE PASO CON LAS MALVINAS?, ESOS PIBES YA NO ESTAN,
NO DEBEMOS OLVIDARLOS… Y POR ESO HAY QUE LUCHAR…”

4. Direção de arte de Adriana Sforza e Cenografia de Ticky García Estevez

5. http://pelisargentinas.com/wp-content/uploads/2010/03/lahistoria-caps.png

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Em busca de memórias 2" por Nilson Braga de Almeida



Os bons professores que ministravam a disciplina de história, ainda na minha época de escola, já alertavam os alunos sobre o certo distanciamento com que deveriam observar as informações registradas nos livros. Esse olhar crítico, na opinião deles, seria fundamental na construção de um cidadão pensante e transformador, que não crê em tudo que ouve e vê, mas que averigua com esmero cada situação a seu redor.

E, em se tratando de nossa pátria-mãe, lembro-me bem que essa atenção deveria ser redobrada. Como fazemos parte de um povo dominado desde a suposta descoberta de nossas terras por Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500, as chances de haver divergências entre o que é ensinado em larga escala à população e o que de fato ocorreu e está ocorrendo é bem maior do que nos países desenvolvidos, pois inúmeros são os interesses sociais, políticos e econômicos ambicionados por estes sobre nossas nações e que estão escondidos atrás de coisas aparentemente comuns.

Adentrando agora apenas no aspecto nacional, local, chegamos à conclusão de que pouca coisa é diferente dessa situação. Os governos que passaram por aqui, sejam democráticos ou ditatoriais, liberais ou autoritários, sempre tentaram guardar e revelar apenas o que querem, apenas o que vai ser vantajoso e que lhes trarão benesses. O importante é noticiar aquilo que vai gerar ganhos. Tudo é visto com interesse.

Parando um pouco para pensar melhor na história contada nos países que fazem fronteira com o Brasil e, comparando-as com a daqui, observamos que não há nada de tão diferente. A América Latina sofre desse mesmo mal. Se olharmos, por exemplo, para nossos vizinhos argentinos, constataremos que a história dos livros também é essa: obscura, tendenciosa e parcial. E é exatamente esse complexo tema que o diretor portenho Luis Puenzo explora no filme A História Oficial (1985). Afinal, o que é verdade e o que é mentira nos livros didáticos? E na imprensa? Quanto de hipocrisia e falsidade chega até nós?

Não precisa demorar muito para ver que o longa poderia promover calorosos debates, com diálogos ácidos no decorrer da película. Mas, ao invés de penetrar a fundo nos questionamentos que surgem em determinados momentos – como nas cenas gravadas na sala de aula, assim como naquelas protagonizadas por uma personagem recém-chegada do exílio e, que passou, inclusive, por sessões de tortura, fazendo a partir daí florescer sérias discussões político-sociais – o cineasta preferiu dar ênfase a uma trama paralela onde predomina o lado pessoal dos personagens, seus dramas familiares.

A História Oficial ficou muito distante do rol das grandes obras cinematográficas, fazendo com que o espectador fique sempre esperando algo mais que o filme poderia proporcionar. Não deixa de ser relevante como resgate de um momento histórico nacional e, por que não, latino-americano. Porém, não empolga como deveria, chegando a ser apenas razoável em se tratando de cinema. O que valeu mesmo? A intenção de pôr o dedo na ferida.

domingo, 25 de outubro de 2009

"As histórias oficiais" por Douglas Deó



O filme de Luiz Puenzo não é exatamente um filme da dúvida. Apesar de vermos claramente a protagonista, Alícia, imersa em seus questionamentos sobre a origem de sua filha adotada, os recursos utilizados no desenvolvimento da história traçam um paralelo com os acontecimentos políticos do país e induzem o espectador a crer na hipótese da personagem.

Por isso o filme pode ser definido como um claro paralelo entre a história da Argentina e a de uma professora que não conhece a origem de sua filha. Ambas as histórias tem sua versão oficial, mas existe algo por trás dessas versões aparentes. O microcosmo familiar funciona, então, como representação do macrocosmo do país, além de estar profundamente ligado aos acontecimentos políticos retratados.

A evolução da heroína se dá, portanto, através da descoberta – mais dedutiva que factual – de que a criança que seu esposo trouxe parta criar foi vítima dos absurdos praticados pelo governo – este desaparecia com seus presos políticos e dava destinos incertos aos filhos nascidos durante a prisão.

A narrativa desenvolve a personagem de Alícia num diálogo entre os dois universos – que não são isolados um do outro – citados acima: inicialmente a postura dela em relação à história recente da Argentina parece distante e fria; ela questiona as afirmações de seus alunos sobre histórias da ditadura exigindo uma fundamentação literal para que se possa crer no que se diz - o universo da sala de aula é um espaço ficcional emblemático, pois desafia a personagem a rever sua postura impassível diante de fatos cruéis próximos a ponto de atingir uma de suas grandes amigas.

Paulatinamente, Puenzo oferece diversas pistas daquilo que quer dizer, levando seus espectadores a sentirem-se tão incomodados quanto a protagonista em relação à história. O marido esquiva-se incomodamente da simples pergunta sobre a família de sangue da criança; o padre nega-se a revelar o que parece saber sobre a história, mantendo-se tão distante de Alícia quanto a encenação da sua sequencia mostra – interpondo a grade do confessionário entre os dois personagens. O próprio sogro de Alícia serve como arauto de seus questionamentos quando, na sequencia do café da manha declara suas suspeitas em relação ao filho – de que este está rico enquanto o país todo está na lama - essa sequencia termina com um plano de forte impacto plástico em que os cinco personagens do diálogo são enquadrados olhando para diferentes lugares, como se estivesse alheios e isolados uns dos outros.

O filme ainda instila no espectador, de maneira menos direta, a certeza de que a origem de Gaby está nos funestos atos do governo argentino através da própria personagem da criança quando esta canta, repetitivamente, que “no país do não me lembro/ dou três passos e me esqueço”, numa alusão à ‘curta memória’ de quem diz esquecer os fatos de uma história tão próxima ao tempo narrativo. Não seria uma referência ainda mais velada à origem da criança a boneca dada pelo pai a Gaby, que a chama de filha, sendo o brinquedo uma representação da própria menina que foi dada sem escolha e sem história a uma mãe ‘inocente’?

Puenzo constrói uma narrativa sólida em que mesmo o panfletarismo ocasional – só ilustrando: quando o avô diz que ser pobre não é vergonha e ser rico não é honra – condiz com suas pretensões ideológicas. Seu desfecho é justificado pelas intenções de quem faz o filme, mesmo que pareça irreal uma mãe deixar para trás uma criança que tratou por filha nos últimos seis anos